Deixar naquela cidade as cores que um dia deram sentido aos meus dias deixa marcas até hoje. Me lembro como se fosse ontem, quando pegava minha melhor amiga, colocava no cano da bicicleta e atravessava o a cidade para ir ao colégio. Este que eu nunca valorizei muito, pra nós o mundo era além daqueles muros altos e da sala da diretoria, por isso a gente pulava o muro e ia comprar alguns doces no supermercado mais próximo. Desse tempo eu carreguei alguns traumas, como as aulas de matemática que me faziam questionar a necessidade de toda aquela exatidão. Confesso que linhas retas nunca me atraíram. Foi assim que meu nome começou a aparecer no cantinho do “nem na particular” e pra falar a verdade eu nunca me importei muito. O que eu gostava mesmo era das conversas que eu tinha com as psicólogas, diretores e da emoção que eu sentia ao receber anotações exigindo a presença da minha mãe. Eu aprendi a dar desculpas, escrever textos redimindo por não ter me dedicado muito e inventar histórias sobre o meu pai no dia dos pais. O dia em que ousei discordar da minha sábia professora de história, (que precisava fazer um “paredão” com perguntas pra ter certeza que decoramos sobre a primeira guerra mundial) fui julgada louca e tive que mudar de colégio pois virei má influência para todas minhas amigas, inclusive pra minha companheira de bicicleta. As briófitas que eu lia nos livros da Irani eram muito mais bonitas no terreno ao lado, junto com as mamonas e a sensação de ser livre, mesmo que depois de cinco minutos o diretor nos achasse, mas aí chegava a melhor hora. Pois não há nada mais emocionante do que encarar a fera de frente. Foi aí que me tornei corajosa, e não na aula de educação religiosa, história ou qualquer outra coisa motivacional que eu era obrigada a aturar por 50 minutos. 50 minutos esses que pareciam uma eternidade, mas me rendia alguns textinhos sofridos no meu caderno das Menininhas. Hoje eu entendo que ganhar nota 6 nas redações da Bárbara não era tão triste como eu achava na hora, ela nunca entendeu que eu não gostava de falar sobre “A educação no país” ou “Aquecimento Global” de forma linear. Mas pior do que a nota em si eram os comentários no final pedindo que eu fosse menos expressiva e que expor os pontos de vista demais poderia me fazer perder alguns pontos no tal do Enem. E é por isso que a educação no país é um lixo, porque os professores querem criar pessoas sem opinião, proibidos de se expressar. Então eu nunca me culpei por matar aulas no banheiro pra poder conversar com as amigas sobre o plano de mais tarde ou sobre os nossos primeiros amores. Eu passei em federal, mas por praga do tal professor ou por querer fazer o que eu quero de verdade, fui parar numa particular. E lá eu não preciso pular muros nem mentir opiniões. Lá é, lá sou.
A foto quem tirou foi a pessoa que eu carregava na bike e atropelava moto ou qualquer coisa que aparecesse na nossa frente: Juliana Avila Carvalho
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