terça-feira, 4 de março de 2008
Com Julia acontecia assim. Como o Sol que teima em nascer todos os dias, o coração dela ainda teimava em bater, já foram tantos socos levados, guardados em um canto escuro e gelado, seguidos de um medo de tocar nas feridas ainda não cicatrizadas totalmente. Sentada com um certo desconforto naquele banco sem encosto que lhe trazia muitas lembranças, o canto dos pássaros servia de orquestra e dava mais intensidade aquele momento. Ela sentia cheiros e só aumentava a sensação de que aquelas feridas não iriam cicatrizar jamais. O sorvete que ele havia dado a ela, o atravessar da rua de mãos dadas, aquele banco... Ai aquele banco! Mas ela havia parado de tentar adivinhar. Aquelas recordações foram quebradas por um gelo ao olhar para o lado e não vê-lo mais – ficara cansativo decifrar os braços cruzados, o silêncio acumulado pelos cantos, o telefone que insiste em não tocar. A vibração da porta que ele bateu foi o pior dos socos que ela havia tomado. Trancou-se no quarto com as luzes apagadas, e o cheiro forte da saudade quase a sufocou. Ele e sua péssima mania de deixar Julia sempre o mais perto do chão. São tão diferentes quanto o oposto do oposto. Tem os mesmos medos, a mesma necessidade de liberdade e eles ainda não acreditavam que aquilo era uma simples coincidência. Permanecia o receio de que não haviam terminado, apenas passado da validade.
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